Uma Promotora com alma de Defensora.
Procuradora de Justiça Soraya Taveira Gaya do Estado do Rio de Janeiro.
Nunca estranhei o fato de me chamarem de Defensora ao invés de Promotora, pois minha alma sempre foi efetivamente de uma Defensora, defendo a verdade e a justiça, pilares da paz. Por ter feito estágio cinco anos nas Defensorias Públicas do Rio de Janeiro aprendi a ver com equilíbrio os conflitos de interesse. Fiz três concursos para a Defensoria Pública e três para o Ministério Público, quase que concomitantemente e fui feliz no concurso para o MP por conta de minha imparcialidade, pois as questões das provas da Defensoria Pública requeriam respostas mais parciais que eu não conseguia dar. Estranhei muito o fato de não poder peticionar como fazia na Defensoria, mas logo me acostumei ao poder da luta pela Justiça, percebi rápido que como Promotora eu tinha como levar para o banco dos réus um suposto culpado e tirar dele um possível inocente. Isso me apaixonou. Não vou negar que essa paixão me fez arriscar a vida muitas vezes, virar noites, deixar minha família chorando minha ausência, esquecer que fazia aniversario, não perceber os filhos crescendo e principalmente reinar na solidão. Não sei por que, mas a maioria das pessoas não gosta de ter amigos Promotores de Justiça, uma vez uma colega justificou isso da seguinte maneira: “quem não deve não teme”. O Promotor muitas vezes se sente como uma onça em extinção: todo mundo admira e defende, mas ninguém quer por perto. Em qualquer ambiente, de certa forma, a maioria das pessoas mudam o comportamento quando sabem quem eu sou, passam a medir as palavras e agir com mais formalidades. Isso me lisonjeia ou isola? Acho que os dois, pois fico feliz em perceber o respeito à minha Instituição e triste por não poder estar no local como uma pessoa comum. Mas voltando ao assunto do meu caráter defensivo, todo Promotor na verdade é um Defensor da correta aplicação da justiça, não estranhem quando se depararem com um Promotor pedindo a absolvição do réu, isso é normal, isso faz parte de nossas atribuições funcionais. Onde todo meu aprendizado obtido junto as Defensorias Públicas teve mais destaque foi no Tribunal do Júri, pois eu conhecia todas as teses defensivas, tanto as clássicas quanto as mais modernistas e era mais simples traçar um roteiro capaz de neutralizar cada uma delas e fazer com os Jurados enxergassem a verdade que sobressaia do Processo. Costumo dizer que sou cria de Ivan Cury, Maria Lúcia Pereira Karam, Humberto Manoel Macedo Filho, Liszt Benjamim Vieira, Franklin Charles Dore Junior e Maria de Lourdes Valle, grandes Defensores Públicos que tive a honra de estagiar, dos quais absorvi o que há de melhor. Esse é o segredo da minha alma de Defensora. 15/4/2011 23:46